O fenómeno Lancia Delta HF em Portugal
E eis que chegamos, finalmente, à última parte deste mini-dossier sobre a associação entre as marcas italianas Lancia e Martini, numa espécie de episódio extra dedicado a Portugal, já que essa realidade nunca teve concretização no nosso país, à excepção das participações da formação oficial nas nossas provas de cunho mais internacional. Mas seria inconcebível não abordar (e recordar) os diferentes Lancia lusos que escreveram páginas e páginas de história no nosso outrora Nacional de Ralis, em especial de dois 037 de Grupo B e de algumas dezenas de unidades do Delta HF de Grupo A, nas suas diferentes gerações.
Comecemos, assim, pelos Delta HF, os mais recentes, nascidos da nova era dos ralis que vigorou a partir de 1987, lançada quase à pressa pela extinção dos monstros de Grupo B. Foi, também, com eles que o nosso país passou a ter de escrever os subsequentes capítulos de ralis, apostando num conjunto de viaturas bem mais sóbrias, em visual e capacidades.
No nosso país houve dois em especial que foram usados por uma mesma família, os irmãos Bica: Carlos, o mais velho, discutiu os campeonatos de 1987 a 1990 com o 4WD, ano em que transitaria para o Integrale 16V que manteve até 1991, com eles se sagrando Tetra-Campeão Nacional (1988 a 1991), sempre navegado por Fernando “Fanã” Prata; já Jorge, o mais novo, levou a marca de Turim ao sucesso nas épocas de 1990 e 1991 com o 4WD e depois, de 1992 a 1995, com o Integrale 16V, tendo como melhor resultado o título absoluto de 1993, depois do Vice do ano anterior, ele que, neste período, teve 4 diferentes navegadores a cantarem-lhe as notas: Hélio Nunes, José Ferreira, Joaquim Capelo (com quem dividiu o ceptro de 1993) e, finalmente, João Sena.
No seu conjunto e de acordo com as estatísticas disponíveis, os Lancia Delta HF nacionais garantiram 25 vitórias no CPR, entre sucessos absolutos e posições de “Melhor Português” em provas internacionais, com um total de 18 posições de topo para Carlos Bica e as restantes 7 para o irmão Jorge, integradas num total de 63 subidas a um dos lugares do pódio das provas do Nacional de Ralis. Para além das vitórias com selo nacional, os Delta HF contam com outras presenças no topo dos pódios de diferentes edições do Rali de Portugal – Vinho do Porto: o 4WD em 1987, através de Markku Alén, o Integrale 8V em 1988 e 1989, ambas por Biasion, e, finalmente, o Integrale 16V em 1990 e 1992, por Biasion e Juha Kankkunen.
Foram dezenas as outras equipas portuguesas que se apaixonaram pela competitiva e robusta proposta da Lancia ao longo de diversas temporadas do Nacional de Ralis, fazendo com que as 4 gerações Delta HF, de Grupo A e Grupo N, registem perto de 400 inscrições em mais de uma centena de ralis portugueses. São exemplos nomes como Ramiro Fernandes, João Santos, Augusto Magalhães, Carlos Morna, António Farinha, Luis Pimentel, José Manuel Cunha, Tomaz Mello Breyner, Jorge Pontes, João Santos, Carlos Carvalho, António Gomes, Horácio Franco, José Manuel Cerqueira, Paulo Carvalho, Paulo Monteiro, Abel Spínola, Manuel Veloso Amaral (“Larama”), Rui Costa, Manuel Vistas, João Nuno Barros, Manuel Ferreira da Silva, José Cunha, Helder Oliveira ou Filipe Oliveira, entre vários outros.
Já a nível global, num sucesso planetário raramente alcançado por um automóvel de competição, equipas de todos os quatro cantos do mundo recorreram a centenas de unidades Delta HF, do Japão à Austrália, dos EUA ao Paraguai, Quénia e Rússia, Indonésia ou Líbano, registando-se, à data e no seu conjunto, números impressionantes: mais de 17.500 inscrições num total superior a 7.500 eventos oficiais de ralis (ou similares), mais de 1.000 vitórias e perto de 2.700 subidas a um dos 3 lugares do pódio. Um verdadeiro global case study ao nível do desporto automóvel!
Os dois Lancia Rally 037 que deixaram saudades… muitas!
Foi António Rodrigues quem estreou um 037 português entre nós, um ex-carro de treinos da equipa oficial – reza a lenda que era o que estivera atribuído a Markku Alén. Foi a 7 de Março de 1984, na safra de “Vinho do Porto” desse ano, com ele dando um recital de condução ao longo dos 15 troços que compunham a 1ª Etapa, num total de 140 km cronometrados, em pisos de asfalto – o seu terreno de eleição – numa altura em que os ralis ainda eram de uma robusta dimensão XXL, quando uma etapa da altura tinha quase tantos troços cronometrados e quilómetros a percorrer quanto um rali da actual era do WRC. Outros (saudosos) tempos…!
Estreado na prova, sem tempo para lhe ganhar mão, Rodrigues intrometeu-se de imediato na luta pelos lugares do top-10, por vezes andando quase taco a taco com os pilotos de fábrica. Navegado por José Cotter, o luso começou por registar um 9º tempo no troço de abertura, os 4,6 km de Lagoa Azul 1, da nossa prova do Mundial, a que se seguiu-se um 6º tempo absoluto nos 10,6 km da PEC 3 – Sintra 1 (à altura os troços designavam-se Provas Especiais de Classificação), posição que se haveria de repetir na Peninha 2 (6,4 km), nada menos do que os 3 troços da então chamada “Ronda de Sintra”.
A surpresa ampliava-se quando no final da 3ª passagem pelo troço da Lagoa Azul o 037 luso aparecia com o 2º tempo absoluto, ex-aequo com os oficiais Walter Röhrl e Stig Blomqvist (ambos nos Audi Quattro A2), Attilio Bettega e “Miki” Biasion (nos Lancia 037 de fábrica) e Juha Kankkunen (Toyota Celica Turbo), e apenas 1 segundo do melhor tempo, alcançado por Markku Alén (Lancia). Deixando muito boa gente de boca aberta, entre pilotos, membros das equipas oficiais e jornalistas internacionais, esse conjunto de resultados levou a que a Lancia Martini Racing passasse a ceder à formação portuguesa uns quantos pneus semi-usados (utilizados em troços anteriores pelos pilotos da formação oficial… à altura era tudo em grande, usando-se quase um jogo de borrachas por especial), num pormenor que, entre outros, os ajudou a alcançar novo 6º tempo, desta feita nos 6,4 km do Gradil, para a seguir registar o 3º melhor crono nos 10,5 km do Campelo.

Finda essa dezena e meia de especiais, o Lancia com as cores do Calçado Fundador ocupava o 7º lugar à geral, a cerca de 4 minutos do então líder Biasion. À sua frente, por esta ordem, estavam apenas os Lancia 037 Evo2 oficiais com Bettega e Alén a secundarem Biasion, separados por 1m40s, mais os Audi Quattro A2 de Hannu Mikkola e de Röhrl, tendo estes o Renault 5 Turbo de Jean Ragnotti de permeio.
Só que a história não teria continuidade pois Rodrigues viria a abandonar, já que nunca houvera intenção de passar da Póvoa de Varzim, já que a nova equipa ainda não tinha material para etapas de terra. Após esse “Vinho do Porto”, Rodrigues faria 4 provas do Nacional de Ralis desse ano, tendo um 2º lugar no Rali Rota do Sol como melhor resultado, apontando, depois, agulhas à vertente da velocidade, com o 037 a dividir-se entre provas de circuitos e rampas, aí alcançando mais uns quantos resultados de relevo.
Dois anos depois surgiria em Portugal um segundo Lancia Rally 037, pelas mãos de Carlos Bica, um carro que “Miki” Biasion havia levado ao 2º lugar no “Vinho do Porto” do ano anterior (1985), então com as cores Jolly Club/Totip, equipa satélite da formação oficial. A estreia fez-se sob as cores da Duriforte no Sopete/Póvoa de Varzim, aí alcançando um 2º lugar, posição que se repetiria dois meses depois no Rali de Portugal, após luta com o Renault 5 Turbo de Joaquim Moutinho / Edgar Fortes, resultados à geral que, como se sabe, foram possíveis pelo abandono das equipas oficiais, na sequência do grave acidente da ronda de Sintra.
Foi com esta macchina que o piloto de Almada, navegado por Cândido Júnior, se bateria nas 10 provas do CNR desse ano, não só contra o “Amarelinho da Renault” (alcunha fofinha dada ao R5 Turbo de Moutinho), como com o Ford RS 200 de Joaquim Santos. Entre outros resultados, o 037 da Duriforte registaria quatro 2ºs lugares e dois 3ºs posições que, no final dessa temporada de 1986, apenas lhes garantia o ceptro de Vice-Campeões Nacionais de Ralis. Seguiu-se uma participação na então 2ª edição do Memorial Bettega, em Itália, palco onde o 037 luso viria a defrontar mais de duas dezenas de outros exemplares idênticos, numa espécie de “até sempre!” deste modelo do Mundial de Ralis.
Acrescente-se que o Lancia Rally 037 apenas alcançou 2 vitórias por terras lusas, ambas no Vinho Madeira e pelas mãos de pilotos estrangeiros, a primeira em 1983 pelo italiano “Miki” Biasion, para dois anos depois o espanhol Salvador Servià fazê-lo. Curiosamente, foi também na jornada madeirense que o Delta S4 registou o único sucesso entre nós, em 1986, por Fabrizio Tabaton. Nenhuma sob as cores da Lancia Martini Racing, um tema desenvolvido pela Garagem em 3 textos complementares. Podes recordá-los aqui: Parte 1, Parte 2 e Parte 3.
Fotos: Garagem / Jota Pê; Oficiais/ Duriforte Team (Facebook); António Rodrigues (Facebook)