Um MX-5, um clássico, queijo da serra e uma quase constipação
Voltei à serra da Estrela e, uma vez mais, fui de Mazda MX-5. Começa a ser hábito, para não dizer vício, de cada vez que tenho oportunidade de conduzir um MX-5, apontá-lo a um dos meus locais preferidos no nosso país. Mas se a viagem teve várias coisas em comum com a última que ali fiz, desta vez foram três as novidades. Por um lado, troquei a capota de lona do soft top pela rígida da versão RF. Por outro, fui, também, na companhia de três amigos. Não a bordo do MX-5, por razões óbvias, mas divididos entre o Mazda e um outro modelo de conceito em tudo idêntico, um Porsche 924 que, felizmente, já passou (e passará mais vezes) pela Garagem. Ambos leves e com óptima distribuição de peso, ambos com potência adequada a uma condução divertida. Pareceu-nos a melhor desculpa para os juntar e ir à Serra da Estrela “em comboio”. O pior foi a terceira novidade…
Alerta de mau tempo
Não sou assim tão velho, mas já o posso dizer: “No meu tempo”, quando chovia bem, não havia alertas a avisar a malta por antecipação. Havia previsões, claro, mas este pandemónio de alertas coloridos que tanta cor dão a um dia que é, quase sempre, apenas cinzento, nem sempre tem justificação. Agora há alertas, e ainda bem, mesmo que, por vezes, as previsões tenham a precisão de um tatuador de rua em Vladivostok no pico do Inverno. Mas desta vez o alerta não só foi relativamente preciso, como mais do que justificado. Esteve um temporal tremendo no fim-de-semana em que agendei a viagem de MX-5 à Estrela. Capota aberta? Nem pensar nisso! Bem isolados no pequeno habitáculo do RF, com ar condicionado e bancos aquecidos disponíveis, lá fomos nós à aventura, juntamente com o belíssimo 924.
Estes outros alertas que passo a descrever têm vindo a ser emitidos, em força, nos últimos anos. E estes, mais do que os restantes, justificam-se e estão, quase garantidamente, certos. Falo dos avisos que nos têm vindo a ser feitos relativamente às questões ambientais, assunto que marca as nossas vidas diariamente e que, tudo indica, eliminará do panorama automóvel os modelos com motor de combustão interna. O automóvel, parece-me, está a ser um pouco o bode expiatório de toda a discussão e a opção eléctrica a ser-nos vendida como uma solução para todos os males. Não vou entrar por aí, mas admito que algo tem de ser feito, também, nos automóveis. E se o caminho é eléctrico, então que o percorramos, sem me fazerem sentir mal por não ter, ainda, um eléctrico. E isto significa, como avançam alguns rumores, que este MX-5 será o último não electrificado, assim, o último de raça pura, num mercado já de si manchado por uma grande artificialidade de sensações e exageros de potência. O MX-5 é uma proposta única e por isso não lhe resisto. Como disse no passado, numa boa estrada como as da Serra da Estrela, poucos são os automóveis capazes de superar o que ele oferece.

Fotografar? Talvez na próxima…
O temporal que enfrentámos pode até justificar-se pelas alterações climáticas e não apenas só porque sim, por ser um temporal como outro qualquer. Não vou, nem quero entrar nessa discussão antes que me acusem de negar algo que é óbvio e para o qual é urgente fazermos algo. Mas também não nego que, embora nos tenha impossibilitado de desfrutar na totalidade das nossas máquinas, bem como de as fotografar na sempre impressionante paisagem natural da Estrela, o mau tempo trouxe alguma emoção extra à aventura na estrada, pelo desafio maior que representa para a dupla homem e máquina. E se é verdade que retiro imenso prazer de uma condução tranquila, neste caso ainda mais prudente devido à muita chuva, também é verdade que senti falta de “apertar” mais com o MX-5. Porque embora já saiba do que ele é capaz, não me canso de o explorar de cada vez que me dão essa oportunidade. Mas desta vez custou-me ainda mais devolvê-lo à Mazda. Pois mesmo depois de quase 800 quilómetros, entreguei-o a pensar que a próxima oportunidade de o conduzir, caso se proporcione, talvez seja a última em que o MX-5 seja tão bom quanto pode ser, antes de se electrificar numa nova geração. Até lá, é desfrutar do brilhante ND e de modelos como o cada vez mais apetecível Porsche 924. O plano saiu furado. Foi chegar à Torre, comprar um queijo, ficar ensopado e regressar a casa. O MX-5 já foi, o temporal acabou e o queijo da serra já era. Mazda, podemos agendar um MX-5 para ensaio? É que o queijo era mesmo bom.
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