Skoda Scala – Um automóvel que é, provavelmente, o carro perfeito?
Tenho o cuidado de, em todos os artigos que escrevo, não utilizar muito a palavra “carro” e recorrer à “automóvel”. Acho que todos os modelos o merecem, ainda que alguns sejam “mais automóvel” do que outros, obviamente. No fundo, estou aqui para falar de carros e é de carros que gosto, mas todos eles são automóveis e usar simplesmente a palavra “carro” para os descrever cria um distanciamento que nem sempre me agrada.
Não tem mal nenhum, mas a maior parte das vezes não o faço. Parvoíces minhas, admito. Porque dizer apenas “carro” quase parece que estou a falar de um electrodoméstico, uma “coisa” que nos leva de A a B e pronto. Mas a verdade é que, para muitos condutores, é isso que o seu automóvel é, um carro, um electrodoméstico como a sua máquina de lavar roupa ou adorado robot de cozinha. Isso não está errado, mas para mim, que também gosto de electrodomésticos, um de quatro rodas tem muito mais valor e por isso custa-me resumi-lo dessa forma tão despida e fria.
Esta excessivamente longa entrada permite-me introduzir o Skoda Scala, um automóvel como todos os outros, mas que é, quiçá, o carro perfeito. Para ir de A a B, em conforto e segurança, com tecnologia útil, boa habitabilidade e versatilidade. Para esse rotineiro dia-a-dia ou para as viagens maiores. Para utilizar sozinho ou em família. Com potência adequada, a de que necessitamos e que podemos usar, sem com isso prejudicar a eficiência que tanto e cada vez mais valorizamos.
Acho que encontrei, na completa e comprovada gama da Skoda, um automóvel pouco visto que é o carro perfeito. Atenção, não estou a dizer que não é merecedor da minha mania de usar sempre a palavra “automóvel”. Estou, por outro lado, a dizer que o acho tão completo e competente que do ponto de vista do comprador de um “carro”, é, muito provavelmente, a compra ideal. Permitam-me explicar.
Não é um SUV
Aos meus olhos, só o facto de o Scala não ser um SUV já merece um tremendo reconhecimento. Moderno e discreto, à boa maneira da Skoda, mas sem seguir a tendência a que quase ninguém resiste, o Scala mistura genes de hatchback com os de uma station wagon de uma forma muito bem conseguida. Mais comprido do que o Fabia e o Kamiq, nunca parece excessivamente longo para a plataforma em que assenta e que com eles partilha, resultando, visualmente, muito bem. O Scala foi, aliás, o primeiro modelo da marca a usá-la.
Neste Scala, tratando-se da versão Monte Carlo, são destaque os elementos escuros e o forte contraste conseguido com o vermelho que a carroçaria veste. Mas esta versão de inspiração mais desportiva não é, a meu ver, a escolha certa da gama. Pode ser a mais vistosa e mais apetecível, mas diria que o equilíbrio da gama está noutra versão, como mais à frente veremos.

Pequeno, mas grande TSI
O motor é um velho conhecido e a verdade é que é sempre bom reencontrá-lo. O pequeno 1.0 TSI é uma referência entre os propulsores três cilindros de baixa cilindrada. Aqui, na sua enganadora versão de 110 cavalos e caixa manual de 6 velocidades – não gosto de pensar que sou um banco de potência com pernas e braços, mas pareceu-me, quase sempre, ter mais potência do que a declarada – revelou, uma vez mais, um óptimo pulmão, capaz de dar ao Scala um andamento muito vivo.
Com a família e respectiva bagagem a bordo, acredito que as impressões sejam diferentes, mas também não me parece que vá desiludir. Com ruído de funcionamento e vibrações contidas, o 1.0 TSI destaca-se, igualmente, pelo consumo reduzido de combustível, não sendo difícil manter a média abaixo dos 7 lt/100 km. Devolvi-o à Skoda, após 600 quilómetros percorridos, com o computador de bordo a marcar 6,4 lt/100 km, mas foram vários os percursos finalizados com médias entre os 5 e os 5,5 lt/100 km.
Espaço de um segmento C, numa plataforma de segmento B
No que diz respeito a habitabilidade, o Scala surpreende com muito espaço livre no banco traseiro. Considerando a minha posição de condução, disponho de quase um palmo de distância livre para os joelhos e o grande tecto panorâmico também não limita os centímetros livres em altura. Por outro lado, em largura, e por muito bom que seja, o Scala é, como quase todos os modelos do segmento, mais indicado para dois do que para três passageiros. Quem por ali viajar, pode também contar com saídas de ar dedicadas, tomadas USB-C e um assento com comprimento suficiente para suportar as pernas, algo que muito valorizo e que poucas vezes encontro.
Mais atrás, com 467 litros de volume útil, o Scala supera, e bem, os 400 litros oferecidos pelo crossover Kamiq, contando igualmente com um melhor acesso e plano de carga mais baixo para a colocação de objectos mais pesados. Na unidade ensaiada gostei de encontrar um pneu suplente debaixo do piso, mas faltava-lhe um segundo piso amovível que permitisse criar um plano de carga ininterrupto com o rebatimento dos bancos, bem como um compartimento para esconder alguma carga.

Ao volante
Voltando ao lugar do condutor, o Scala destaca-se pela facilidade com que se deixa levar, com uma boa posição de condução e comandos leves e bem calibrados. O condutor tem inclusivamente à sua disposição vários modos de condução que fazem variar a resposta do motor e o peso da direcção, bem como o amortecimento, estando disponíveis duas configurações, uma mais orientada para o conforto e outra mais dinâmica, capaz de controlar melhor os movimentos da carroçaria quando o ritmo aumenta. Os benefícios são notórios, mas considerando o perfil mais familiar do Scala, bem como um comportamento que é sempre são, seguro e suficientemente ágil, podia até prescindir da afinação mais desportiva da suspensão.
Quanto a equipamento, e apesar de não faltar um painel digital com vários modos de apresentação e ajudas como o assistente de manutenção na faixa de rodagem, senti falta da câmara traseira de apoio ao estacionamento, bem como do acesso e arranque sem chave, dois elementos que podem ser incluídos por um preço total de 500 euros. Nesta unidade, os comandos do ar condicionado são da “velha guarda”, com comandos rotativos mecânicos, uma solução que desagradará a muitos, mas que para mim foi uma autêntica lufada de ar fresco pela utilização simples e segura que proporciona. Já ao nível dos materiais utilizados no tablier, o Scala supera, por exemplo, o novo Fabia, contando com plásticos mais macios e agradáveis ao toque na zona superior do tablier, algo de que a nova geração do utilitário checo, estranhamente, prescinde.
O Scala ideal
A Skoda propõe a versão Monte Carlo do Scala por um preço base de 27.675 euros, mas para o teres exactamente nesta configuração, terás de pagar 30.935 euros. Longe de ser barato, dada a realidade actual do mercado automóvel e os inúmeros argumentos do Scala, não considero um valor exagerado. Mas apesar de aprovar, e muito, o visual desta versão mais desportiva Monte Carlo, o Scala ideal está posicionado, diria eu, um pouco mais abaixo na gama, no nível de equipamento Style e com a caixa DSG associada, transmissão cuja suavidade de funcionamento é garantia de ainda mais conforto e facilidade de utilização.
O preço de 29.175 euros dessa versão aproxima-se assim do deste Scala “AQ94GT”, mas o visual mais sóbrio de um Scala Style, bem como os argumentos já conhecidos da caixa DSG são o complemento perfeito para um modelo ao qual é difícil apontar um defeito. Mais do que um bom automóvel, o Scala é, muito provavelmente, o carro perfeito para o quotidiano. E agora sem o ponto de interrogação do título. É mesmo.