Comparativo Mazda: Duas gerações em confronto num improvável par de 3
Não são assim muitas as oportunidades de realizar um artigo deste género. Um trabalho que permita comparar, em condições idênticas, duas gerações de um mesmo modelo, neste caso seguidas e separadas por cerca de cinco anos se considerarmos as suas matrículas. Mais difícil, mas não impossível graças à Mazda, é fazer um par de 3, um par ímpar, em designação e, como veremos, em capacidades dinâmicas. Uma impossibilidade matemática que, tal como outras de cariz mais mecânico, mas também numérico, são ultrapassadas por esta centenária marca japonesa que continua a apostar em soluções que nos dizem ser, actualmente, desadequadas.


Um bom exemplo disso é a não adesão da Mazda à tendência do downsizing dos motores de combustão, não propondo em nenhum dos seus modelos um motor abaixo dos 1.5 litros. Uma abordagem em que continuam a apostar com o recente lançamento de motores de cilindrada acima dos três litros, bem como aqui bem exemplificada por dois automóveis de segmento C – onde muitos modelos do mercado apostam em motores sobrealimentados de um litro de cilindrada – com motores a gasolina atmosféricos com dois litros de capacidade. O estado pisca-lhes o olho, claro, pois há que pagar pelo simples facto de o motor aspirar mais ar a cada duas voltas da cambota, mesmo que até possam poluir e gastar menos.


Mas mais do que remar contra a maré dos motores de baixa cilindrada, a Mazda continua a ocupar um espaço muito especial no mercado, dando muita importância às sensações, à experiência e ao prazer de condução. E não o faz através de motores incrivelmente potentes, mas sim através de automóveis dinâmicos e envolventes, com um comportamento em estrada capaz de divertir, com boas caixas manuais e com, entre outros elementos, sistemas de travagem e direcção com bom tacto. De uma maneira ou de outra, todos os seus modelos, pequenos ou grandes, os SUV e até o 100% eléctrico MX-30, parecem inspirar-se na pureza do conceito MX-5, um automóvel que todos nós, pelo menos uma vez na vida, devíamos conduzir.


O novo Mazda 3 é um dos melhores automóveis da sua classe. É, também, um dos melhores a nível dinâmico. Mas o novo Mazda 3, numa tentativa da marca de reduzir custos de produção, imagino eu, perdeu a mais elaborada geometria multibraços da suspensão traseira usada na geração precedente, algo muito falado aquando do lançamento desta mais recente e que, obviamente, não explica todas as diferenças que entre elas existem no capítulo dinâmico. Mas já que tinha ambas à disposição e já que as duas conquistaram merecidamente um estatuto de referência pelo seu comportamento exemplar, não precisei de mais nenhuma desculpa para as levar até um curto, mas repleto de curvas, troço de estrada.

Ambos os Mazda 3 recorrem, como acima disse, a um motor a gasolina com dois litros de cilindrada. Os dois dispõem, igualmente, de caixas manuais de 6 velocidades. Porém, o novo 3, como seria de esperar, está equipado com tecnologia mais actual que visa reduzir os seus consumos e melhorar o seu desempenho, como um sistema mild hybrid e outro que desactiva dois cilindros do motor em situações de menor exigência. No total, entrega 150 cavalos de potência. Já o exemplar da geração anterior, importado de Espanha, cujo motor de 120 cavalos desenvolve agora, após reprogramação, uns muito simpáticos 170 cavalos, conta com 140 mil quilómetros no odómetro e com uma suspensão que, embora não se sinta “cansada” (longe disso) já percorreu mais 132 mil quilómetros do que a da nova geração. Há que ter esse pormenor de grande importância em atenção neste duelo.


Como já estava mais habituado e como o queria usar como base de comparação, o novo Mazda 3 foi o primeiro a levar o “tratamento”, mas o 3 “espanhol” não teve muito tempo parado à espera, pois decidi não prolongar demasiado as passagens, uma vez que não escolhi o melhor dia para fazer este trabalho. O céu cada vez mais cinzento prometia, a qualquer momento, transformar as curvas ligeiramente húmidas num muito escorregadio tapete de provas e por isso apressei-me a apressar ambos os Mazda. E já que abordei a questão da aderência, começo pelos pneus, de dimensões iguais em ambos os Mazda, mas com clara vantagem para o “canto vermelho” deste embate, com os novos Goodyear Eagle F1 a superiorizarem-se aos Toyo que calçam este novo 3.


Passando aos motores, sendo ambos atmosféricos, são mecânicas pelas quais é necessário puxar para delas se extrair a potência. Os condutores mais jovens, habituados aos modernos motores turbo, com bastante binário disponível a baixas rotações, iriam certamente estranhar a sua demorada resposta nos baixos regimes, análise em que o sistema mild hybrid dá um grande contributo ao novo 3, ajudando o ponteiro a abandonar essa primeira zona do conta-rotações com mais facilidade. Nos médios regimes, parece-me que pouco os separa, mas lá mais “para cima” o elemento mais experiente desta dupla superioriza-se com um andamento mais convincente, explorando melhor as longas relações de caixa que ambos partilham até ao corte de injecção.


Ambos contam com caixas de velocidades e direcções com tacto muito positivo, mas o interesse deste trabalho está precisamente em tentar “ler” as pequenas diferenças que os distinguem. Começando pela direcção, não me será fácil explicar, mas diria que, idealmente, gostava de uma combinação de sensações de ambos os sistemas. Preferi o “peso” do 3 mais recente, a exigir uma força ligeiramente superior para rodar o volante e que me transmitiu mais confiança a andar depressa. Mas a resposta da direcção do 3 anterior pareceu-me mais rápida, menos filtrada e, assim, sempre mais linear a comunicar com as mãos. Tenho a certeza de que essa maior progressividade é também explicada pelos pneus Goodyear, bastante mais eficazes, mesmo sobre asfalto molhado.
Quanto às caixas de velocidades, ambas, como disse, com relações muito longas, recolhi impressões em tudo idênticas às dos sistemas de direcção. Ambas precisas e muito agradáveis de utilizar, mas a do novo Mazda 3, apesar de o manípulo não parecer ter um “caminho” tão bem definido quanto a do mais antigo, transmite uma melhor sensação na mão, de uma maior robustez e fluidez de actuação do selector. Importa também referir as diferenças ao nível da travagem, não tanto das capacidades, mas sim daquilo que o pedal transmite ao pé, com a electrificação e a capacidade regenerativa do sistema mild hybrid a introduzir alguma, ainda que ligeira, artificialidade no feedback recolhido ao pisar o pedal do meio.


E depois de tudo isto, resta abordar a dinâmica de condução propriamente dita, a principal razão pela qual coloquei, frente a frente, estas duas gerações do Mazda 3. Como disse, a nova geração aposta numa geometria de suspensão traseira menos evoluída, mas a verdade é que pisa a estrada com maior robustez, com uma sensação, diria até, algo premium, denotando o bom trabalho de uma suspensão que, não sendo exageradamente rígida, controla melhor os movimentos da carroçaria. O novo Mazda 3 é um automóvel dinamicamente muito competente, representando muito bem os valores da marca e proporcionando, sem dúvida alguma, prazer de condução a quem o procure, considerando que estamos, recordo, na presença de hatchbacks familiares sem quaisquer objectivos de elevada performance. Está, indubitavelmente, entre os melhores do seu segmento.


É também por isso, mas não só, um melhor automóvel que a geração que substituiu. O que seria da Mazda se assim não fosse. Porém, e independentemente de ser mais rápido e estar melhor calçado, o bem rodado Mazda 3 vermelho deste trabalho denota também um maior gosto em rodar a traseira, mostrando-se bastante ligeiro de movimentos se provocado – ainda que a electrónica rapidamente intervenha e coloque um ponto final no assunto – assumindo um comportamento ainda mais divertido e, em caso de maiores exageros que já tive oportunidade de sentir do lugar do passageiro com o ESP desligado, muito mais radical na forma como se solta.

O novo Mazda 3 é um produto muito bom e é, indiscutivelmente, um automóvel superior à geração que substituiu há já alguns anos. Esta é a prova irrefutável de que a evolução do modelo foi bem-sucedida. Mas o que a nova geração também prova é que, apesar de manter quase intacta a filosofia Mazda que protege, dentro do possível, o prazer de condução e a sempre pela marca mencionada ligação entre Homem e Máquina, algo cada vez mais raro nos dias de hoje, quase tudo nela surge de uma forma um pouco mais filtrada, mais contida e mais ponderada do que na geração anterior. Um par com uma condução ímpar, ainda que um destes 3 pareça ligeiramente mais ímpar do que o seu muito bom par. Confuso? Ambos os “três” são muito bons.