BYD Atto 3 – Um bom motivo para vencer o preconceito
Não é todos os dias que tenho a oportunidade de conduzir um automóvel que é, por um lado e como é hábito, uma novidade, mas que representa também a entrada de uma nova marca no nosso mercado. A BYD – acrónimo de Build Your Dreams – é uma marca chinesa de automóveis, uma das maiores do mundo no que aos veículos elétricos diz respeito, bem como um dos maiores e mais experientes produtores de baterias a nível global e este Atto 3 é uma das suas principais armas para conquistar o mercado europeu.
Continua a existir algum preconceito para com os produtos chineses e os automóveis não são exceção. Independentemente das suas qualidades e defeitos, são muitos os portugueses que não aprovam a esperada invasão automóvel chinesa, não depositando muita esperança no produto, bem como não vendo com bons olhos a concorrência para o mais consagrado e experiente produto europeu.


Por outro lado, aos restantes agrada-lhes a ideia de um produto com preço, à partida, mais competitivo. Um que force, também, a descida dos preços dos concorrentes já estabelecidos e que tentem assim manter a sua posição no mercado. Do meu humilde ponto de vista e simplificando bastante a questão, não entrando, também, em questões geopolíticas, o cliente sai a ganhar com uma maior oferta, com mais opções que abranjam um maior número de necessidades e gostos. A BYD é, aos meus olhos, muito bem-vinda a Portugal.


Depois de três parágrafos de introdução, resta-me apresentar o Atto 3, um dos quatro pilares de suporte desta fase inicial da BYD no nosso mercado – para além da berlina Han, do SUV de 7 lugares Tang e do mais compacto Dolphin – e que é, ao assumir-se como um SUV do segmento C, talvez o mais importante de todos. A nível estético, o Atto 3 pode até não deslumbrar, mas também não choca. Isso é bom. Um design moderno, mas que é, também, consensual. Aposto que escondendo o símbolo BYD, passaria bem por um modelo de uma marca mais conhecida aos olhos de muitos condutores menos atentos.
Interior original e…bom
Ao interior já não posso aplicar o adjetivo consensual. Não é fácil gostar-se da decoração do tablier e restante habitáculo. Admito, eu gosto. Acho “fresco”, original, diferente. Tem uma boa combinação de cores, tem texturas diferentes e padrões que se destacam. Tem soluções fora da caixa como os manípulos de abertura de porta com tweeters incorporados, as originais saídas de ar da ventilação, “cordas de guitarra” nos compartimentos das portas, bem como um ecrã tátil do infotainment giratório. Mas não sei, também o reconheço, se vivendo com o Atto 3 todos os dias, a originalidade não se transformará em demasiada informação visual.


A qualidade dos materiais e de construção, no geral, merece nota muito positiva. Gosto, também, que a consola mantenha botões físicos para algumas funções de conforto e da condução. O ecrã do infotainment é grande – 15,6 polegadas – mas alguns dos seus “botões” e caracteres são pequenos, mal de que o painel de instrumentos também sofre. O infotainment compensa este pequeno detalhe com uma boa definição e com o truque de magia que permite rodá-lo em 90 graus. O habitáculo pode igualmente ser enriquecido com luz ambiente, criando um espaço acolhedor e personalizável.


Passando ao banco traseiro, boas novidades para as famílias que procuram um SUV elétrico de segmento C. Isto porque o Atto 3 disponibiliza espaço mais do que adequado para dois adultos, quanto mais para duas crianças. O assento é, igualmente, bem desenhado, dando um bom suporte às pernas. A bagageira oferece 440 litros de espaço, volume extensível a mais de 1300 litros com o rebatimento dos bancos. Ao fazê-lo, cria-se um plano de carga ininterrupto, sem degraus. Espaçoso e versátil. Não gostei, no entanto, de não ver por ali um pneu sobressalente.


Ao volante
A posição de condução é tipicamente SUV. Mais por cima da ação, fácil de encontrar e confortável. A prioridade ao conforto, aliás, está bem patente na resposta da direção, bem como no acerto de suspensão. Não senti neste primeiro BYD que conduzi alguma daquela dureza de amortecimento de que alguns elétricos não prescindem de forma a controlar melhor o seu peso elevado. Filtra bem a maior parte das irregularidades do piso e consegue, ainda assim, manter um dinamismo que, não impressionando, cumpre muito bem. Sempre seguro, com reações previsíveis, como se exige num automóvel de família para o dia a dia.


Debaixo do pé estão disponíveis 204 cavalos e 310 Nm, potência e binário entregues às rodas da frente. Com 160 km/h de velocidade máxima e uma aceleração de 0 a 100 km/h em 7,3 segundos, o Atto 3 não é um daqueles elétricos com performance para impressionar os amigos. Tem sim um “pulmão” mais do que suficiente para lidar com os seus 1.750 kg, bem como, ainda assim, para deixar o comum familiar a combustão uns bons metros atrás a olhar para o semáforo verde.
A Blade Battery do Atto 3 dispõe de uma capacidade de cerca de 60 kWh, a qual, segundo a BYD, permite percorrer 420 quilómetros em ciclo combinado WLTP antes de ser preciso fazer o seu carregamento. Quando chegar a altura, o Atto 3 pode ser “abastecido” através de um posto DC de 88 kW de potência máxima, dispondo igualmente de um carregador de bordo de 11 kW para AC. O consumo declarado é de 15,6 kWh/100 km, mas neste teste fiz melhor e sem me esforçar muito: 14 kWh/100 km. Estão disponíveis dois modos de regeneração de energia, mas as diferenças são pouco notórias, nenhum deles permitindo conduzir com recurso a um pedal apenas.

Gama Atto 3 com dois níveis de equipamento
A BYD propõe duas versões do Atto 3 no mercado nacional. O nível de acesso Comfort destaca-se pela boa dotação de equipamento, mas a versão conduzida foi a de topo de gama, designada Design. Da lista do equipamento de série fazem parte, por exemplo, elementos como o teto de abrir panorâmico, banco em pele vegan, o ecrã rotativo, acesso e arranque sem chave, bomba de calor, câmaras 360 graus, alerta de ângulo morto e tecnologia vehicle to load, entre outros. Com apenas a pintura metalizada como opcional e considerando a campanha em vigor durante o ensaio, a BYD propõe este Atto 3 por 43.490 euros.


Design exterior bem conseguido, habitáculo espaçoso, versátil e com ótimos materiais. Potência mais do que suficiente e eficiência energética que coloca a autonomia real acima dos 400 quilómetros. Sim, o design interior poderá não ser para todos e existem por ali alguns detalhes a melhorar, mas a irreverência pode, igualmente, ser o fator diferenciador. Esqueçam lá essa coisa do automóvel chinês. Bem-vinda, BYD.