BYD Han – Não queres um Tesla? Então por que não…
Com um título destes, estou a pedi-las. Mas não se revoltem, fãs da Tesla. Não estou a fazer comparações, estou apenas a destacar que o Han provou ser uma alternativa válida à escolha óbvia de tantos condutores de berlinas elétricas.
Depois da minha “estreia BYD” ao volante do Atto 3, regressei à gama da marca chinesa para agora conduzir este bonito Han, uma elegante berlina de quase 5 metros de comprimento que, apesar da configuração algo discreta e do silêncio com que se move, não passou despercebida, nem a quem já conhece a marca, nem aos que estão nesta fase a descobri-la.


Sim, o símbolo é novo e a designação “Build Your Dreams” na traseira chama à atenção até aos mais distraídos, mas o design exterior do Han merece, na minha opinião, ser aplaudido. A dianteira é um pouco anónima, com uma “grelha” e óticas exageradamente finas. Dão-lhe dinamismo, é certo, mas falta por ali algo para complementar a face. Porém, de perfil e na secção traseira, o Han compensa com um design que combina, na dose certa, proporções elegantes com linhas desportivas. Gosto bastante, assumo.
Espaço, conforto e equipamento
Tal como no Atto 3, o design do habitáculo é, digamos, menos europeu do que o da carroçaria. Ainda assim, a bordo do Han, a irreverência não é tão grande como a apresentada pelo SUV compacto. A qualidade dos materiais convence e há uma inegável sensação de bem-estar a bordo, mas gostava que o grande ecrã tátil estivesse de alguma forma integrado no tablier, um elemento assumidamente moderno que se destaca num ambiente com elementos algo conservadores. São disso exemplo os tons castanhos do interior desta unidade, bonitos, sim, mas não sei se para muitos clientes.



A consola central disponibiliza atalhos úteis para algumas funções como os modos de condução, desembaciador e ativação da climatização, mas o infotainment é a central de comando e regulação de praticamente todas as funções. O grafismo tem boa definição, mas é pequeno, dificultando a utilização do sistema. Felizmente, a dimensão do ecrã compensa-o um pouco. O painel de instrumentos é também integralmente digital e, curiosamente, só dá indicação da média de consumo real após percorridos 50 quilómetros.



O conforto no banco traseiro é, como esperado, bastante bom. As portas são grandes, a acessibilidade ótima e considerando a minha posição de condução, sobrou-me mais de um palmo de espaço livre para os joelhos e uns quatro dedos para a cabeça. É possível ajustar eletricamente a inclinação do encosto e no apoio de braços central está colocado um terceiro display tátil que permite controlar os bancos, a climatização, a música e o teto panorâmico, por exemplo. A bagageira tem um volume adequado, 410 litros, mas a pouca altura livre do acesso vai dificultar a colocação de alguns objetos.
Ao volante, demasiado alto
Voltando ao lugar do condutor, achei a posição de condução demasiado alta devido à colocação das baterias. Não é alta como num SUV, claro, mas também não é baixa como numa berlina típica deste segmento. Depois de encontrar a melhor posição possível, lancei-me à estrada com a bateria carregada a 100%, cum uma autonomia total indicada de 521 quilómetros. Em ciclo urbano, a BYD diz a que a Blade Battery de 85,4 kWh de capacidade útil, permite uma autonomia maior, suficiente para o Han percorrer 662 quilómetros. Só a bateria pesa praticamente 500 kg.



Equipado com dois motores, um por cada eixo, o Han disponibiliza uma potência total de 517 cavalos e um binário combinado de 700 Nm. Não é por isso de estranhar que acelere de 0 a 100 km/h em apenas 3,9 segundos – feito que justifica a designação “3.9 S” na traseira – mesmo pesando qualquer coisa como 2.250 kg. E apesar do indiscutivelmente impressionante poder de aceleração, não consigo não recordar o Han como um elétrico com potência a mais. A tração integral pode ser um benefício em climas mais rigorosos, admito-o, mas depois de com ele ter passado uns dias, acho que o Han também passava bem sem um dos motores, prescindo dessa potência e binário extra, mas também do peso adicional.
O Han é melhor para relaxar
Até porque o Han, apesar de incrivelmente rápido, não quer ser e garantidamente não é um desportivo. Sim, dispõe de potentes travões Brembo com ótima resposta, está bem calçado – pneus Michelin Pilot Sport 4 de medida 245/45 R19 – e está equipado com suspensão com amortecimento variável capaz de controlar bem os movimentos da carroçaria. Mas a potência excessiva e a forma tão imediata como esta é entregue coloca dificuldades não só ao condutor como ao próprio chassis, não havendo tempo para sentir progressividade e linearidade de reações, para dela se usufruir. Talvez num circuito, em ambiente fechado, sim, mas numa estrada convidativa, com boas curvas, para se desfrutar ao fim do dia? Não precisa de tanto, garanto-vos.



Gostei bem mais do Han a ritmo normal, sem usar os mais de 500 cavalos. Aí sim, com a suspensão no modo mais brando é possível usufruir de todo o conforto a bordo, onde também se destaca uma boa insonorização. É um elétrico apto a percursos mais longos, mas também não me fez sentir, em momento algum, intimidado por fazer passar os seus cinco metros de comprimento nas ruas mais movimentadas da cidade. Aqui, em ambiente urbano, seria, no entanto, bem bem-vindo um sistema “one pedal”, mas o modo de regeneração mais intensa não chega para tanto.
Boa alternativa à escolha óbvia
A BYD está, sem dúvida, no bom caminho. Gostei do Atto 3 e também gostei do Han. Sim, não é perfeito. O consumo é elevado – não consegui descer a média do teste abaixo dos 18 kWh – e há outros detalhes que devem também ser revistos. São disso exemplo o computador de bordo, cujas médias só são válidas depois de acumulados 50 quilómetros, o assistente de máximos, com funcionamento algo irregular e os dois modos de travagem regenerativa, cujas diferenças – ligeiras – só se sentem após tocarmos no acelerador. O assistente de manutenção na faixa de rodagem também merece recalibração.


Por outro lado, há muito para se apreciar nesta grande berlina chinesa. Por fora, o bem conseguido design, avaliação sempre subjetiva, bem sei, mas onde marca pontos pela positiva. No habitáculo, gostei da qualidade dos materiais, do conforto, do espaço e do equipamento proposto. Falta de potência ninguém vai sentir, aposto, mas, como acima disse, até a dispensava, pois o Han, embora veloz, é muito mais agradável de conduzir a um ritmo calmo e responsável. E para quem, como eu, também prefere um elétrico com esse carácter mais tranquilizante, o Han cumpre e cumpre bem.