Ensaio Total: BYD Seal Design
Depois de ter estado, no início do ano, na apresentação nacional do BYD Seal, evento em tive oportunidade de ter um breve contato com a versão topo de gama Excellence, regressei recentemente à berlina elétrica da marca chinesa – eleita Carro do Ano 2024 em Portugal – para um contato mais prolongado e conclusivo.


Desta vez, e depois de conduzida a versão com dois motores elétricos e 530 cavalos de potência, tive oportunidade de testar um Seal Design, versão equipada com um motor elétrico no eixo traseiro e com 313 cavalos de potência. Apesar da menor potência disponível, não se pode apelidar um automóvel que acelera de 0 a 100 km/h em 5,9 segundos como lento. Sim, um Seal topo de gama precisa de menos de quatro segundos para completar o mesmo exercício, mas garanto-vos que, como veremos no final, não é só por isso que é tentador optar pela motorização topo de gama. Este é rápido, o outro é um míssil e a diferença no preço, essa sim, pode levantar algumas dúvidas sobre qual o Seal a comprar.
Ao volante
No que à capacidade de entrega do motor deste Seal Design diz respeito, não há reparos a fazer graças a 360 Nm imediatamente disponíveis, mas a calibração da resposta do pedal de acelerador pareceu-me, em determinados momentos, ser merecedora de um pequeno ajuste. Se pressionado com decisão, é por vezes notório o atraso na resposta do motor, escassas décimas de segundo que, é verdade, só se notam em condições de maior exigência, mas o ótimo desempenho dinâmico do Seal a isso convida. É um pormenor, bem sei, e que pode ser compensado com uma maior progressividade ao pisar o pedal, mas não pude deixar de reparar, nem de o comentar.


Já o pedal de travão transmite uma boa sensação ao pé, mesmo nos momentos mais “acelerados”, com uma boa transição entre regeneração e desaceleração por fricção. No infotainment, é inclusivamente possível selecionar um modo desportivo para a travagem, bem como um modo de regeneração de energia mais intenso, ainda que nunca suficiente para se poder prescindir do pedal de travão na maior parte das situações de condução, o que seria bom. A direção tinha sido um dos elementos da condução que mais dúvidas me tinha deixado desde o primeiro contato com o Seal. A intensidade da assistência é inferior a velocidades mais elevadas, exatamente como deve ser, mas essa variabilidade pareceu-me, também, algo excessiva, pois a 100 km/h já se sente uma direção muito “pesada”, introduzindo demasiada artificialidade na resposta. A assistência da direção, tal como os travões, também conta com modo Sport.


Quanto ao comportamento, nota muito positiva para o Seal. Não dispõe de amortecimento variável, mas a verdade é que, apesar dos seus potenciais benefícios serem óbvios, a berlina da BYD passa bem sem essa adaptabilidade, com uma suspensão de amortecimento fixo bem afinada para controlar com eficácia os 2055 kg de peso. O conforto de rolamento é mais do que adequado e o desempenho dinâmico muito convincente, impressões para as quais também contribui a configuração de tração traseira. É possível desligar a eletrónica para tentar dar um pouco mais de liberdade ao eixo traseiro, mas assim que se exagera, o ESP volta a dizer “presente” e acaba-se, imediatamente, a brincadeira. Este Seal dispunha de jantes de 19 polegadas com pneus de medida 235/45, também contribuindo para a eficácia dinâmica.
Por dentro
A posição de condução é confortável e vai certamente agradar a quem aprecia um maior envolvimento na experiência, com um volante de aro grosso e com alguns comandos físicos que são muito bem-vindos numa era de excessiva digitalização, aqui também presente através dos dois ecrãs digitais, um para o painel de instrumentos e o segundo – maior e como é hábito na BYD, rotativo – para o sistema de infotainment. Os comandos físicos para controlo dos modos de condução, volume e atalhos para climatização estão colocados junto do pequeno manípulo de controlo da transmissão na consola central. Por baixo existe um bom compartimento de arrumação, mas o desenho dificulta o acesso às tomadas USB que também por ali estão posicionadas. Por outro lado, a zona para carregamento sem fios de smartphones é excelente. No que diz respeito à qualidade do interior, é óbvio que o Seal também conta com alguns plásticos menos nobres em zonas abaixo da linha média, mas no topo do tablier, bancos e forros das portas, a apresentação e sensação de qualidade são bastante boas.


No banco traseiro há espaço com fartura para pernas e cabeça e o teto panorâmico é uma enorme mais-valia para o conforto a bordo, prolongando-se até bem atrás e aumentando, ainda mais, a sensação de espaço e luminosidade. Não dispõe de cortina e não senti a sua falta, mas no pico do verão não sei se será bem assim. A bagageira tem 400 litros de volume – nesta versão de um motor elétrico é complementada por bagageira dianteira com 53 litros adicionais – e conta, tal como o habitáculo, com ótimo acabamento, toda ela forrada. A acessibilidade é que não é tão boa quanto o espaço disponível, uma vez que o Seal não é um hatchback, o que limita a colocação de objetos de maiores dimensões. Debaixo do piso há um compartimento útil para arrumar cabos de carregamento.


BYD Seal: Duas versões separadas por 1000 euros
Há arestas a limar, é certo, mas o Seal mostrou ser uma excelente proposta para o segmento das berlinas elétricas. O design fez sucesso junto de quem o viu – incluo-me nesse grupo, embora reconheça que as linhas desportivas prejudiquem a visibilidade traseira – e a condução, ainda que possa ser melhorada com, por exemplo, pequenos ajustes e um modo de regeneração de energia mais forte, é um dos pontos altos do Seal, com potência mais do que suficiente e um desempenho em estrada muito convincente. A sensação de qualidade é elevada, o equipamento é vasto e o espaço atrás garante muito conforto nas longas viagens, percursos em que a grande autonomia é outro argumento deste BYD, com 570 quilómetros declarados em ciclo WLTP e quase confirmados por uma média de teste que oscilou entre os 14 e 15 kWh/100 km.


Resta abordar o preço do Seal Design, disponível a partir de uns muito apetecíveis 46.990 euros ou, caso 313 cavalos não cheguem e a ideia de 3,8 segundos dos 0 a 100 km/h seja irresistível, por 47.990 euros na versão Excellence. São “apenas” 1000 euros adicionais por um Seal ainda mais rápido, mas igualmente mais equipado (heads-up display e tecnologia “vehicle to load” com cabo de ligação incluído; versão Design tem V2L, mas não inclui cabo) e não muito menos eficiente, cuja capacidade e segurança adicionais providenciadas pela tração integral podem fazer a diferença para alguns condutores. Se 1000 euros não forem “apenas 1000 euros”, o que percebo perfeitamente, esta versão Design que não é topo de gama, jamais te parecerá, igualmente, uma de acesso.